quinta-feira, 24 de abril de 2014

BATE PAPO com JOMAR DE MELLO

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Arquiteto no sentido superlativo da palavra, Jomar de Mello surpreende. Totalmente identificado com as influências contemporâneas, modernistas e minimalistas, Jomar e sua equipe imprimem em cada obra as suas características principais: pesquisa de novos materiais, detalhamento apurado e único, proporcionando uma atmosfera de elegância, sobriedade de linhas e a limpeza de informações e sobretudo a excelência na execução do acabamento.


 "um projeto sintonizado com o espírito contemporâneo é aquele que promove prazer e é capaz de gerar “eventos”, valorizando assim o espaço, o homem e a natureza"


Em meio a preparativos de viagem para Áustria, o arquiteto gentilmente abriu um espaço na agenda e conversou com o Chez Moi! acerca de suas referências e seu ponto de vista sobre arquitetura, moda e cinema, acompanhem:

Casa VO em Curitiba PR
CM_De onde você busca inspiração para projetos tão contemporâneos e arrojados?

JM_Partindo das limitações presentes no cotidiano de qualquer arquiteto, desenvolvemos projetos onde nada é aceito como dado a priori, propõe-se uma arquitetura que foge às concepções homogêneas e previsíveis. Transformando sucessivamente tudo o que muitas vezes é tomado por outros como banal e corriqueiro. O cotidiano é nossa fonte de inspiração...Pode ser um pessoa, um momento, uma música, um gesto, uma cor...Concordo com o arquiteto Bernard Tschumi quando diz que, para ele, "a arquitetura não é o conhecimento da forma; mas sim, uma forma de conhecimento". Minha arquitetura é a "leitura" do cotidiano do cliente, é como eu o vejo. Mas eu aumento o volume, eu avanço no tempo, com a intenção de "jogá-lo" pra frente. De tornar este novo cotidiano vanguarda.

Casa FR- Penha SC
CM_É bastante perceptível os enquadramentos e emolduramentos que você cria com sua arquitetura, recurso tão explorado no cinema. A ideia de criar verdadeiros cenários para a vida é um partido da sua arquitetura?

JM_Nunca foi uma intenção cria um cenário no sentido estático. Eu penso em habitat. Eu penso em movimento, evento...prazer (como em Bernard Tschumi). Há uma reciprocidade óbvia entre cinema e arquitetura, ainda que não haja uma relação inversa. Cinema na arquitetura e arquitetura no cinema são fenômenos diferentes. O vice-versa não se aplica. A arquitetura incorpora valores cinematográficos. O cinema incorpora a arquitetura como mecanismo. Do cinema, a arquitetura retirou o sentido de movimento, de montagem, de enquadramento. Da arquitetura, o cinema retirou um meio de exprimir significados silenciosos, de sugerir uma intenção, um sentido de lugar. Até porque o que se representa verdadeiramente no cinema não é nunca um objeto, mas a sua idéia, não um lugar, mas todos os lugares que refletem a mesma idéia. Num aparente paradoxo, podemos ainda dizer que, apesar de a arquitetura ter a capacidade, inexistente no cinema, de concretizar um espaço real, o cinema tem a capacidade, inexistente na arquitetura, de controlar o tempo e a causalidade. Na arquitetura, ao contrário do cinema, a duração e a direção da experiência espacial é determinada pelo utilizador do espaço, muito mais do que pelo seu criador/diretor.

Casa RV- Curitiba PR
CM_A excelência do acabamento, as diferentes texturas e formas são elementos basal do Haute Couture e também elementos decorrente de seu trabalho, moda e arquitetura caminham juntas?

JM_Sim. Um exemplo: Giorgio Armani sabe fazer do cientificismo da arquitetura uma fonte de inspiração para criar roupas em sintonia perfeita com as proporções do corpo. Ele é um mestre do corte, um intenso pesquisador da harmonia perfeita entre silhueta, proporções e postura...o trabalho dele se aproxima muito da arquitetura. 
Armani convidou o arquiteto Massimiliano Fuksas para fazer algumas mega stores, uma em Hong Kong outra na quinta avenida em Manhattan, para abrigar as coleções do grupo (desde Emporio Armani, Armani Casa, Armani Restaurante...) Quando se entra na loja de NY, podemos perceber a escada escultural que liga todos os andares, feita com uma estrutura resistente em aço e coberta por um material plástico ficando com a aparência de uma escultura.

Armani Store 5º Avenida- NYC
É um elemento completamente independente, que apenas traz a loja, com decoração escura e iluminação pontual, uma luz e dinamismo incríveis. Ao subir pela escada, também formada com rampas intercaladas entre os degraus, podemos nos sentir em um labirinto, ou dentro de um tornado, já que ela promove o formato de um redemoinho de vento. De qualquer modo essa fusão entre escadas e rampas, subindo e as vezes descendo para subir (!), promove um caminho inusitado e dinâmico que nos leva a cada andar. Iluminada através do “corrimão” , a escada mostra apenas o caminho da subida, proporcionando um jogo de luz e sombras. O uso de cores sóbrias no projeto deixam os produtos a venda mais aparentes, mesmo que sejam de cores similares. O uso da iluminação de cima para baixo, sobre os manequins, assim como nas araras destacam as texturas de cada material. A iluminação ao contrário, dá maior destaque, deixando as áreas de passagem da loja em uma penumbra. 
É percebível então a importância da associação moda-arte-arquitetura. A arte da reprodutibilidade dos produtos Armani precisava de uma concepção arquitetônica adequada para que o "status de arte" fosse ampliado, convergindo o ato de comprar moda em "experiência cultural". 
Isso demonstra a versatilidade da relação, que não está presa apenas a influência recíproca, possui na realidade um significado muito mais amplo de cooperação mútua. Fuksas é um arquiteto visionário, Armani, uma grife ditadora de moda, o resultado dessa união é um projeto que ressalta moda e arquitetura como artes a serviço do pensamento humano. Moda e arquitetura, como fenômenos ligados, oferecem muito mais que um vestiário adequado, um ambiente acolhedor. A roupa do indivíduo, o seu ambiente de trabalho ou o seu lar, representam muito, diz respeito a quem ele é de verdade. 
Então, sim...a sofisticação (no sentido de complexidade) do Haute Couture e a versatilidade do Prêt-à-Porter tem muita ligação com nosso método projectual. 


GS Lounge- London UK

A arquitetura que leva a assinatura do Jomar de Mello é tão atual e tem um frescor de mundo que poderia estar em alguma dessas praias super exclusivas nas Ilhas Baleares ou em algum bairro elegante em Barcelona. O Chez Moi! é fã incondicional da arquitetura linda do Studio JM, logo mais postaremos algum trabalhos do escritório na íntegra. 

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