domingo, 17 de agosto de 2014

CICLO DE PALESTRAS DOCOL | MAURICIO ARRUDA

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Há 15 anos, Maurício Arruda se dedica a transformar material descartado em objeto e móveis que aliam sustentabilidade, bom gosto e originalidade.


Ele também trabalha para mudar a forma como encaramos o lixo. O Chez Moi participou da conversa com o arquiteto e transcreve aqui os melhores momentos. Enjoy! 

Docol_ Quais são os maiores desafios que você enfrenta para atender a uma demanda comercial fazendo produtos com material reciclado?
Maurício Arruda_Começamos a perceber que fazer produtos de design trabalhando com reúso de material é um processo artesanal. meu sonho é produzir design sustentável em escala industrial e acessível financeiramente à população. Corro atrás disso diariamente, mas há muitas coisas que ainda são feitas de material artesanal, mantadas no escritório, com materiais coletados por nós. Tentamos manter o máximo possível um padrão de execução e qualidade em todas as peças. Então o que produzimos não são produtos artesanais, e sim semi-artesanais. Há um grupo de fornecedores, de artesãos, como pintores e marceneiros, que trabalham conosco, Temos orgulho de dizer que muitas coisas são feitas a mão. Pensamos vários projetos para a escala industrial, mas ainda existe um gargalo no mercado, por que é  mais barato fazer algo novo do que reutilizar material. É mais barato produzir utilizando uma matéria-prima do que uma "matéria não-prima". E isso impacta o custo de qualquer indústria. 

D_O que você quer dizer com "matéria não prima"?
M_ As pessoas tem uma visão muito negativa do que é lixo, do que elas mesmo descartam. Quando falamos de lixo, em geral associamos a algo extremamente ruim, aquilo que não vamos utilizar mais, que não tem serventia. Usamos a expressão: " ah, hoje estou um lixo". Nosso cérebro está condicionado a ver e pensar: "isso já foi usado, então não serve pra nada". Só que, se prestarmos atenção, tudo o que é descartado, todo o resíduo sólido , pode ser reaproveitado, seja ele papel, metal ou vidro. Comecei a chamar os materiais reaproveitados de "matéria não prima". É uma forma de recontextualizar o lixo, um exercício diário de olhar para as coisas de outra forma.


D_ Existe diferença entre ecodesign e design sustentável? e como fica a questão da água nesses dois casos?
M_ Há diferença sim. Ecodesigné aquele produzido por meio de um sistema que visa a proteção de recursos naturais; por exemplo, produtos feitos de madeira de reflorestamento ou cujo processo de fabricação contemple a economia de água. Eu tenho essa preocupação em tudo que faço. Já quando falamos em design sustentável, não estamos nos referindo apenas ao meio ambiente, o conceito é muito mais abrangente, envolve a questão a questão cultural, social. importam até a história e a afetividade do produto. Faz 15 anos que estou trabalhando nesta direção, é difícil falar algo 100% sustentável. Estou tentando transformar meu design no mais sustentável possível. É um exercício diário, difícil, quase uma utopia, mas viável. 

D_ Você tem preferencia por alguma peça sua?
M_ É difícil responder a essa pergunta de forma objetiva. na verdade, gosto de produzir peças que contam boas histórias. Muita coisa foi para a gaveta porque estava fazendo só pela beleza, e isso perdeu o sentido para mim. Já existem muitas cadeiras maravilhosas, e acho que não precisamos de mais uma cadeira a ser feita. As novas tecnologias vão trazer muitas surpresas . Mas quero ser um bom contador de histórias, mais do que um simples designer. A luminária FLUOR, por exemplo é zero comercial, o projeto está disponível no meu site. Eu nao tenho carro, vou a pé todos os dias para o trabalho. Foi nesse percurso que percebi a quantidade enorme de lampadas fluorescentes dispensadas todos os dias nas caçambas. Elas contêm pequenas quantidades de mercúrio, que é altamente tóxico. parti para uma intensa pesquisa sobre o assunto. O Brasil produz 100 milhões dessas lâmpadas por ano- e recicla só 5%. A holanda recicla 98%. Aqui elas vão para o lixão, onde crianças andam descalças. Eu comecei a planejar algo para chamar a atenção para esta questão, daí surgiu a ideia da luminária. A pessoa que faz o projeto está reciclando e, ao mesmo tempo, sendo designer. Estamos vivendo um momento muito descartável, quero criar relações mais duradouras.


D_ Quando você passa ao lado de uma caçamba, sempre dá uma olhadinha?
M_ Eu sou "supercaçambeiro" (risos), tanto que criei a luminária Casamba [ com S mesmo]. já trouxe muitas coisas para o escritório, como os tacos que compõem essa luminária, todos de madeira nobre. Trouxe sacos e sacos de coisas, nunca faltou " matéria não prima" para a luminária, até a palinha é sobra dos empalhadores de cadeira.   

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