sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O BRASIL MODERNISTA DE DJANIRA

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Djanira trabalhou em lavoura de café, em criação de gado, em cozinha de família, foi modista, chapeleira e costureira antes de tocar num pincel pela primeira vez quando, aos 23 anos, em 1937, internada num sanatório para se tratar de tuberculose, viu na parede um desenho de Jesus Cristo e brincou: “Isso até eu faço”.

Saiu do hospital para morar em Santa Teresa e lá abriu uma pensão. Assim, vivia de costurar para damas cariocas e alugar quartos para artistas — mas se fechava na cozinha à noite, quando todos dormiam, para desenhar. Aos poucos, em seu ateliê de costura, moldes de saias, rendas, fitas e retalhos conviviam com incontáveis desenhos sobre papel.

Num depoimento ao Museu da Imagem e do Som (MIS) em 1967, ela se lembrou daquele tempo: “Uma moça da Suíça francesa me pediu para lhe fazer um vestido, chegou ao meu ateliê, viu aquela porção de desenhozinhos na parede e perguntou: ‘De quem são?’. Eu disse: ‘São meus’. Ela: ‘Não, eu quero saber quem fez’. Eu disse: ‘Fui eu’. E ela: ‘Então você é uma artista!’. Eu falei: ‘Não, isso é brincadeira minha’”. A moça lhe apresentou o pintor Emeric Marcier (1916-1990), que, diante dos desenhos de Djanira, manteve o diagnóstico: “Você é artista”. 


A expressão deste mundo insere-se no contexto artes do Brasil dos anos 1940. O início da carreira artística de Djanira coincide com a convivência com pintores modernos como Milton Dacosta e Emeric Marcier, com quem tem aulas de pintura durante alguns meses, em 1940. Assim, sua obra possui temas caros à chamada arte primitiva ou ingênua, como as festas folclóricas, mas com elementos do modernismo: um exemplo são as padronagens, como a do quadro Costureira (1951), e as imagens sem perspectiva em que os corpos parecem colagens, como o cartaz para a peça Orfeu para Conceição (1956), que lembram os trabalhos do pintor francês Henri Matisse (1869-1954). O escritor Paulo Mendes Campos (1922-1991) nota essa ambivalência em seu trabalho e afirma que Djanira “nos comunica a ingenuidade brasileira” com “técnica muito disciplinada”.



Nos anos 1950, após temporada nos Estados Unidos, Djanira volta ao Brasil e decide viajar o país e retratar sua diversidade. Se antes as cenas representadas eram seu ambiente natural de vida e trabalho, agora a artista viaja em busca de material para sua produção. Em diversos estados brasileiros, realiza pinturas de colhedores de café, vaqueiros, mulheres no campo e na praia, índios, tecelões, oleiros e trabalhadores de usinas de cana-de-açúcar.




As cenas não se restringem ao trabalho rural: há operários da indústria automobilística e mineiros, como mostram as pinturas dos anos 1960 e 1970. Seu interesse nas cenas únicas do cotidiano dos trabalhadores resulta numa pintura que transcende essa singularidade e busca o “aspecto permanente do assunto”, conforme afirma o crítico José Valladares (s/d). Um vendedor de gaiolas revela uma espécie de personalidade comum a todos os outros vendedores, como se Djanira buscasse, na multiplicidade da cultura brasileira, arquétipos que se repetem.




O aspecto religioso dos trabalhos de Djanira está presente desde seu primeiro desenho – um Cristo (1939) feito no sanatório de São José dos Campos. Para o crítico Clarival do Prado Valladares (1918-1983), também aparece nas obras em que não há a figura de santos e outros seres celestes. Os temas prosaicos ganham “transcendência plástica”, levando o objeto captado para outro plano. Valladares afirma, além disso, que a dualidade da obra de Djanira, composta pela fusão entre pintura mística e pintura terrena, tem “resultado” que “surpreende pela poesia e drama”.

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