sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O QUARTO | OSCAR NIEMEYER

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Niemeyer em seu escritório (Fotografia: Carlos Moskovics)

Em 1996, Marcos Sá Corrêa publicou na série Perfis do Rio (Prefeitura do Rio/Relume Dumará) um volume sobre Oscar Niemeyer. Com o texto fluente e elegante que são marca de um dos principais jornalistas de sua geração, o livro concilia a abordagem (por vezes crítica) das grandes obras do arquiteto com causos da vida cotidiana. O primeiro capítulo, “O quarto”, tem algumas saborosas páginas dedicadas à rotina peculiar dos escritórios comandados por Niemeyer, dos menores no Centro do Rio de Janeiro até o último, com deslumbrante vista para o mar de Copacabana. Bebida, muita alegria, alguma política e até sexo permeavam o dia a dia de um dos escritórios de arquitetura mais importantes do mundo. Selecionamos alguns trechos do capítulo inicial, devolvendo ao público um livro que está fora de catálogo.
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Chega-se ao escritório dobrando um joelho da escada, onde os degraus, ao fazer a volta, tamparam a meia-altura a porta do elevador de serviço. Quem não gosta de Oscar Niemeyer poderia dar por vista a sua arquitetura nesse ponto. Ei-la a desafiar outra vez o espírito prático, antecedendo o homem que, na Argélia, esqueceu de prever entre dois pavimentos a passagem de um para o outro. No Rio de Janeiro, para resolver problemas de ronco no quarto de casal do médico Leonel Miranda, na Gávea, dividiu o leito conjugal com um vidro. Já os devotos de Oscar Niemeyer têm ali a oportunidade de constatar que até do lado de fora de sua cobertura aboliu-se a viga que, na arquitetura brasileira, escora a discriminação social na vida cotidiana ? o elevador de serviço, reservado à carga e aos cidadãos que conhecem o seu lugar. O edifício tem dois elevadores. Niemeyer, um. Esse desconto se imortalizou nos anais do condomínio, quando em 1992 o edifício Ypiranga ? ou melhor, Niemeyer ? recebeu a visita de, modéstia à parte, Fidel Castro. Ha entre Fidel e Niemeyer uma afinidade que aumenta com o passar dos anos, a proporção em que diminui na enxurrada mundial do neoliberalismo o número de comunistas fora dos livros de História. “Sólo quedaron dos comunistas, Oscar y yo”, costuma dizer Fidel ? ou melhor, costuma dizer Fidel na imitação que dele faz José Aparecido de Oliveira, perito em atazanar seu amigo Niemeyer com piadas do gênero.
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Abre-se a porta do escritório e dois passos adiante ? paft! ? um clarão queima o ambiente. À primeira vista, é como se o escritório nem existisse. Ou pelo menos como se a sala branca, sem divisórias, com poucos móveis, varada de ponta a ponta pela luz do mar que entra pelos vidros sem o filtro de cortinas e persianas, existisse apenas como moldura da janela. O escritório e a janela. Leva algum tempo para o olho descolar da vidraça que brilha em frente e se dispor a um passeio pelo cômodo, onde as poucas peças são todas conhecidas de algum lugar, seja esse lugar um prédio público de Brasília ou uma revista internacional de arquitetura. Ali está a espreguiçadeira de balanço, resumida num arco com almofada. E a marquesa de palhinha, de braços retorcidos como um broto de samambaia. Tudo isso, embora debaixo do nariz, vem em segundo plano. Em primeiro está, lá no fundo da sala, a melhor vista que se possa conceber da praia de Copacabana.
Aquilo não é só uma janela, mesmo uma janela de 17 metros. É um mural luminoso, um painel em que o Rio de Janeiro estampa diariamente, várias vezes por dia, a cada movimento do sol, em toda mudança de nuvem, tudo o que a cidade ainda tem a dizer sobre terem levado a capital para Brasília. “A gente se sente num navio”, comenta Niemeyer. É mais do que isso. A gente não se sente diante do arquiteto de Brasília, mas do arquiteto carioca que passou a maior pane de sua longa vida entre dois bairros do Rio de Janeiro. Ele vai dizendo:
? Sempre gostei da praia. Quando eu era menino, meu pai alugava no verão uma casa aqui em Copacabana. Fui criado em Laranjeiras, mas no verão daquele tempo, como outras famílias iam pata a serra, nós vínhamos para cá. De noite a família se sentava na areia. A casa era bem na beira da praia. E ela era linda. Eu gostava de ver o arrastão, os barcos em silhueta correndo no mar e os peixes chegando, com aquela gente toda em volta. Essa praia foi sempre muito importante para mim.
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(…) Nos expedientes intermináveis, nos serões que varam a noite, nos fins de semana de funcionamento sem trégua acontece cada coisa que só mesmo as memórias de Niemeyer para mexer. As memórias ou amigos muito chegados, como Carlinhos Niemeyer, que apresenta o caso sem circunlóquios: “Sempre teve fodelança no escritório do Oscar.” Um quarto com cama feita e banheiro, de prontidão para emergências. Depois, dizem que ele não pensa em questões de funcionalidade. “Era muito prático o quarto para esses troços”, diz Carlinhos. Um quarto, diga-se de passagem, equipado para todo tipo de diversão, dispondo inclusive de um buraco feito à bala na parede, dando para o forro de um armário, de onde se podia vigiar a cama. Esse visor, por exemplo, mereceu muitas linhas de memórias. Um dia, ele foi mostrado, sem a necessária introdução, a um engenheiro da Novacap, a agência urbanizadora de Brasília. O cliente estava no escritório para cuidar de assuntos profissionais e era tido como “sério e compenetrado”. Usava botinas de elástico do Rio de Janeiro da década de 1960. Debruçado na prancheta, olhando planos para a Capital, foi chamado a um canto por Niemeyer:
- Olha nesse buraco.
Havia um casal em ação. Ele se recompôs como pôde, armou-se do ar de quem não tinha gostado e voltou para a mesa de trabalho. Alguém grita às suas costas:
- Fica aí olhando. Quando estiver interessante, chame o Dr. Guimarães.
Surpreso, Dr. Guimarães? Os escritórios de Oscar Niemeyer sempre foram alegres. “Tão alegres”, ele admite, “que, não raro, o transformávamos num verdadeiro festival”. Os expedientes sempre foram longos, duplos, triplos, porque neles se fez mais do que trabalhar. No mínimo, política. “À tarde, os amigos aparecem, enchem de risos e alegria a pequena sala’ que ocupo, e esquecemos a arquitetura”, ele escreveu. Suas memórias não conservaram propriamente o ineditismo. Conservaram o recato por iniciativa alheia. Recolhidos pelo crítico Jean Petit, capítulos quase inteiros foram publicados em francês, aliás numa edição de luxo, impressa na Itália. No Brasil, em 1992, a editora Revan, do amigo Renato Guimarães, trouxe à tona outras fatias dos manuscritos, selecionados num livro interessante ? Meu Sósia e Eu ?, onde Niemeyer confessa o quanto deve de sua arquitetura aos demônios internos, incapazes de se comportar diante de uma mulher. Nos dois casos, poupou-se ao arquiteto de Brasília a exibição do malandro carioca, que é seu sósia e seu sócio em toda a obra monumental que ele teve a impressão de fazer brincando num escritório onde toda noite, como ele diz, “os amigos aparecem, o Estelita gritando pelo gelo, o Rômulo com duas garrafas debaixo do braço”.
Quem gostava muito de ouvir relatórios sobre as atividades extracurriculares do escritório de Niemeyer era Rodrigo Mello Franco de Andrade, santo padroeiro do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. “Muitas vezes ia vê-lo cedo, descendo juntos para a cidade. Falávamos de tudo e, não raro, da bagunça que fazíamos no escritório”, conta o arquiteto, descrevendo o relacionamento com o amigo que o induziu a ler já adulto os clássicos portugueses. Um sujeito sério que, segundo Niemeyer, vivia lhe perguntando: “E as coisas lá no escritório?” Que não houvesse dúvidas: “Ele achava fantástico aquele ambiente de bagunça que nunca prejudicou o trabalho. Todo mundo trabalhava ? e muito”. Para ele, Niemeyer e sua equipe “pareciam crianças”.
A que escritório se referem essas lembranças? Só fazendo as contas. Foram muitos e um só. A mesma rotina pulou entre vários endereços no Rio, acampou em Brasília, fez ninho nos Champs Elysées em Paris, andou por Argel, no norte da África. Na década de 1940, estava instalado na rua Nilo Peçanha, no edifício Porto Alegre, defronte do Ministério da Educação e Saúde. Niemeyer começava seu vôo próprio, saltando de um longo estágio com o arquiteto Lúcio Costa, já com a reputação e a clientela feitas. Tinha encostado o dedo de principiante na própria sede do ministério, modificando o projeto de Le Corbusier. Em parceria com Lúcio Costa, fizera o pavilhão brasileiro para a Feira Internacional de Nova York em l939. Juscelino Kubitschek, o prefeito de Belo Horizonte, entregara-lhe o cassino, o iate clube, o restaurante, a igreja de São Francisco de Assis, toda a Pampulha. Tomara-se, portanto, um arquiteto respeitável.
Pois foi nesse escritório que um dia, voltando o grupo de uma incursão ao Centro, animado pelo circuito de boates, bilhares, hotéis e prostíbulos que atendiam à política nacional ainda sediada no Rio de Janeiro, o arquiteto Carlos Leão ? fino desenhista, tão fino que com o passar dos anos seria cada vez mais desenhista e menos arquiteto ? decorou as paredes da sala com cenas de bacanal. Cenas completas, com filigranas ginecológicas, falos, bichos, o escambau. A família Niemeyer ocupava, na ocasião, dois apartamentos contíguos no edifício Porto Alegre, No pequeno, arrumava-se o arquiteto. No maior, ficava o consultório médico do neurologista Paulo Niemeyer ? o irmão mais novo ?, a sala de espera comum. Graças a Deus, como reconhece o cirurgião até hoje, “escritório de arquitetura dispensa sala de espera.”
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Andaram trocando de pontos na rua do Passeio, inclusive no edifício Mesbla, onde Niemeyer se deu muito bem: “É lógico que nos divertíamos; que as mulheres compareciam, que inventávamos todas as brincadeiras permitidas à juventude, mas que pelos preconceitos da vida poderiam ser criticadas, embora o nosso trabalho seguisse paralelo, cheio de esperanças e responsabilidade. Velhos tempos! E a Cinira?”
Cinira? Bem, Cinira foi uma secretária particularmente integrada ao espírito da coisa, Um dia depois de contratada, perfeitamente à vontade, aderiu de corpo e alma, começando pelo corpo, aos estatutos daquela confraria, sem discriminar entre o time local e o visitante. Voltando, portanto, a Niemeyer: “E a Cinira? Que de nossas brincadeiras participava, bela e barroca como as preferíamos? Como é triste sentir tudo isso tão longe como a própria vida! E fico a lembrá-la alegre e generosa, a rir desinibida como uma velha e querida companheira. É claro que muitas vezes o trabalho nos ocupava, que labutávamos noites seguidas, até a madrugada, sobre as pranchetas do escritório. Mas com que alegria o fechávamos para, em grupo, brincarmos um pouco!”
No escritório do Passeio Público alteraram-se alguns hábitos da equipe, mas não os essenciais. Havia um rendez-vous já funcionando no andar de cima. O Café Vermelhinho, antiga filial do escritório, deixou de ser frequentado. Usavam-se os bancos do Passeio Público para trabalhar ao ar livre, por causa das “árvores frondosas, dos caminhos de saibro, das elevações do terreno criando intimidades. E como era brasileiro e tropical, verdes sobre verdes!” Visitavam também o bilhar: “Quantas tardes lá passamos a procurar caçapa! Às vezes, ao nosso lado, um amigo acertava o taco, compenetrado. Era o maestro Heitor Villa-Lobos, com seu inseparável charuto, o gênio e a simplicidade se completando”.

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