quarta-feira, 28 de junho de 2017

A BARRIGA DO ESTILISTA | MODA E ARQUITETURA

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A arquitetura está na boca da moda. Ou a moda estaria na barriga do arquiteto? Alimentam a poética do abrigo estruturas, volumes, cheios e vazios, luz e sombra, transparências, materiais, cortes e recortes. 

Na moda, essa escala se materializa no corpo, olhando para o fazer arquitetônico como fonte de inspiração. Balenciaga é, mais uma vez, a senha para a nova/velha tendência. Agora, pelas mãos do francês Nicolas Ghesquière, estilista da maison, retomando a herança do mestre espanhol Cristobal Balenciaga (1895-1972, considerado "o arquiteto da moda").


"A relação moda/arquitetura sempre existiu. No século passado, diversos movimentos estreitaram ainda mais a parceria entre esses dois mundos. Não é difícil relacionar as linhas de Paul Poiret (estilista francês dos anos 20) com as dos designers Ruhlmann (art déco) ou Leleu (século 18); de Coco Chanel com Le Corbusier e Bauhaus; de Joe Colombo (1930-1971; designer de móveis) com Courrèges (anos 60)", diz o arquiteto Arthur Casas, responsável por projetos fashion como a loja de Alexandre Herchcovitch e o hotel Emiliano (Jardins).


Ville Savoye, projeto do arquiteto franco-suíço Le Corbusier


Para Roberto Loeb, autor do incrível projeto da nova fábrica da Natura, o relacionamento entre arquitetura e moda se situa preponderantemente no campo das atitudes e dos conceitos. "Não penso que haja uma regra fixa ou padrão, depende da sensibilidade e individualidade do designer, que pode ler a arquitetura com um olhar de integração ou contraposição. Valem a individualidade e a potência do criador, arquiteto ou designer. Valem a inovação e a celebração da vida."

"A grande obra de arquitetura da virada do século sem dúvida foi o projeto de Frank Gehry para o museu Guggenheim em Bilbao, na Espanha. Ele nasce de um desconstrutivismo orgânico provavelmente inspirado -ou no mínimo alinhado- com criadores como John Galliano", diz Arthur Casas. "Para os arquitetos, a arquitetura sempre foi uma arte maior que a moda. A moda dialoga mais rápida e democraticamente com o público. Tive a oportunidade de conhecer o processo de Gehry e acredito que, para um estilista, ele seria muito familiar, com suas maquetes e recortes -e não mais com plantas baixas", completa.




Oscar Niemeyer, o maior de todos os arquitetos brasileiros e o de maior projeção internacional, cria as formas mais originais que o mundo da arquitetura tem reverenciado e é também influência para criadores do mundo da moda. "O paralelo entre Niemeyer e a moda vem através do corpo", defende o arquiteto Carlos Albuquerque. Radicado na Alemanha, Albuquerque prepara tese de doutorado "A Corporificação na Obra de Niemeyer", para a Universidade de Brandemburgo, utilizando a moda para provar que o que os estilistas vêem na arquitetura de Niemeyer é a presença do corpo: "Ao observar a coleção de verão da Balenciaga, vemos que a linha é muito acentuada, transformando-se em volume e estrutura. As linhas das vigas da catedral de Brasília podem ser lidas como a cintura de um corpo feminino", diz Albuquerque, lembrando o aparecimento do tema também no inverno 2003 da Patachou e de Reinaldo Lourenço.





Loeb conclui: "Balenciaga integra suas roupas ao corpo da mulher; Niemeyer se inspira nas curvas femininas para sua arquitetura. Os dois têm em comum um olhar para a vida e para o feminino. Resultam daí desenhos que bebem na mesma fonte: a mulher".
Para Arthur Casas,"Balenciaga se inspirou na estética curvilínea e orgânica do arquiteto brasileiro para criar sua coleção. Moda também é oportunismo". "Fazer arquitetura é colocar artes plásticas, cinema, culinária, moda, dança e teatro embaixo de um mesmo telhado", sintetiza o mais badalado arquiteto brasileiro do momento, Isay Weinfeld. "A moda é um dos interesses da minha vida, ela sempre me influenciou. Estou muito mais interessado em Paul Smith do que em Tadao Ando. Quando Paul faz, por exemplo, uma camisa branca e o caseado do botão da camisa é roxo, isso tem tudo a ver com a arquitetura que pretendo fazer", assume.


Texto inicialmente publicado Folha de São Paulo

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